quarta-feira, 18 de março de 2009

O que o Mastercard não paga!



*Bicicleta Caloy: R$200,00;
* “Vida” de um detento dentro da Penitenciária de Pedrinhas: R$ 500,00;
* “Vida” de um ser-humano: NÃO TEM PREÇO.
Para todas as outras coisas existe, Mastercard, Visa, Hipercard, Fininvest, Cheque Especial, Conta Universitária etc...
No mundo neo-liberal, capitalista e globalizado em que vivemos, é comum se colocar preço em tudo que vemos. Também é natural querermos o tênis, a roupa, o celular, ou seja lá o que estiver na moda. Nossos olhos gordos - alimentados pela lavagem cerebral do mass media (mídia em massa) diário a que nos submetem os jornais, a TV, os rádios e a internet - não nos livram o bolso de nos enforcarmos com as milhares de prestações que nos concebem as lojas, ou o pagamento mínimo que os cartões de crédito nos permitem pagar. Mas e quando o dinheiro não dá pra pagar nem uma parcela ou mesmo o mínimo do cartão? Alguns se conformam com a idéia de não ter o objeto desejado; outros apelam para meios ilícitos de adquiri-los, quais sejam o furto, o roubo, o latrocínio, o tráfico etc.
Assim o fez Maycon Viegas de 18 anos de idade, que após furtar (o furto se difere do roubo pela ausência de violência na ação delitiva) uma bicicleta, foi preso e encarcerado nas dependências do Presídio de Pedrinhas. Lá, Maycon se deparou com um outro questionamento: quanto vale a vida humana? “Aqui, a minha vale R$500,00”, escreveu ele em uma carta endereçada aos pais. Esse valor era destinado ao pagamento do “seguro” a que se submetem os presos recém chegados ao Complexo de Pedrinhas. Aquele que não paga, é morto; como Maycon não conseguiu o dinheiro a tempo, acabou perdendo a vida nas mãos de tantos outros miseráveis que ali se encontram, muita das vezes, por receberem o estigma de criminoso.
Não estou defendendo, muito menos negando a criminalidade. Estou apenas alertando para a inflação do índice de criminalização a que os sistemas de punição informais (igrejas, escolas, família, mídia etc) submetem os seres desprezíveis e vulneráveis da nossa sociedade de políticos corruptos. Questiono-me sobre a real (in)efetividade da prisão como caráter re-educativo ou re-socializador da pessoa humana. Mas como se re-socializar alguém que nunca foi socializado, que nunca fez parte de sociedade que o julga e o condena sem lhe deixar espaço para o contraditório e a ampla defesa? Como tratar um humano a quem nunca fora oferecidos subsídios suficientes para viver como tal? O que se pode esperar de alguém que é tratado de uma forma sub-humana, por meios de métodos Ludovicos que nunca deram certo?
A mídia enfatizou essa notícia na segunda-feira que se passou. Muitos se disseram estarrecidos com o fato; outros deram “graças a Deus”; afinal de contas, “é menos um bandido no mundo” e “menos um ocupando espaço na cela”. O que a mídia não questiona nem alerta é sobre as mazelas que a lavagem cerebral comercial que ela nos proporciona. No fim do mês “as pessoas estão condenadas à insônia pela, pela ânsia de comprar e pela angústia de pagar.” (GALEANO, 2007, p. 259). Sendo assim, aqueles que não podem adquirir os bens que a mídia mostra ser “imprescindíveis” acabam tendo que apelar para outros meios de aquisição, que não aquele “laboral”. Por causa disso, pagam um preço maior do que o valor do objeto furtado, e maior que o bolso pode pagar. Isso a mídia não divulga e a polícia não fala.
A morte Maycon Viegas nos faz refletir quanto vale a nossa vida. A bem da verdade, cada um tem seu preço. Se não tem um preço (monetário), tem pelo menos um valor (podendo este ser sentimental, afetivo, psicológico etc). Fato é que no fim das contas, somos rotulados e sobre os nossos rótulos recaem, conseqüentemente, o nosso valor. Assim, o valor daquele estigmatizado pela sociedade como criminoso, como não humano, era de apenas R$ 500,00 reais; morto por seus próprios “colegas” de pobreza, que “às vezes matam, por encomenda, outros meninos tão mortos de fome quanto eles. Pobres contra pobres, como de costume: a pobreza é um cobertor muito curto e cada qual puxa para um lado.” (GALEANO, 2007, p. 91).
Como diria Humberto Gessinger: “o preço que se paga, às vezes é alto demais.”; principalmente quando não se tem dinheiro para pagar.

Alanna Sousa

2 comentários:

Caio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caio disse...

Mortos são aqueles que não conseguem enxergar o tamanho desse absurdo.
Mortos de sentimentos, de compaixão, de solidariedade...


Pobres daqueles que perderam o DOM de simbolizar.